Os
Valores Éticos nas Relações Interpessoais no Ciberespaço
Se
navegar é preciso, a netiqueta é essencial.
Quais são os desafios que nós, enquanto docentes,
enfrentamos em relação às inovações tecnológicas?
Comecei a lecionar nos meados da década de 80, quando
ainda não tínhamos laboratórios de informática e muito menos dispositivos
móveis. Os desafios para que se tornassem alunos articulados, tanto na produção
escrita quanto na desenvoltura oral praticamente são os mesmos que enfrentamos
hoje em dia. Devido à inserção da tecnologia digital no ambiente escolar e nos
lares, muito se questiona sobre sua interferência na produção textual de nossos
alunos. Na verdade, bem antes dessa “revolução” digital, percebia que muitos de
meus alunos tinham dificuldade ao redigir. Vale lembrar que, com a onda das
teorias do Construtivismo, havia orientação para que os professores não usassem
caneta vermelha ao corrigir produções textuais dos alunos. Sugeria-se que tal
prática, recorrente nos tempos do ensino tradicional, interferia na
criatividade dos alunos. No meu caso, tendo sido alfabetizado na época do
ensino tradicional, não me sentia intimidado pela cor vermelha das correções.
Hoje são poucos os alunos que se dão ao trabalho de passar a limpo os conteúdos
para apresentar algo decente aos professores, quando recebem vistos. Não havia
computadores para facilitar a edição, todavia eu costumava ter caderno de
rascunho.
Em se tratando de trabalhos de pesquisa, os alunos
basicamente e quase sempre entregavam meras cópias de enciclopédias. Certa vez,
recebi um trabalho sobre a Inglaterra no qual um dos meus alunos simplesmente
copiou tudo, inclusive o relato do autor: “... quando visitei o Palácio de
Buckingham.... e ao visitar Liverpool tive a grata satisfação de estar na
cidade dos Beatles.” Usou a primeira pessoa como se ele próprio, o aluno,
tivesse viajado e passado por tais experiências. Isso evidencia que não se pode
culpar apenas a prática do Ctrl +C / Ctrl +V da era digital.
Na verdade, mesmo quando os trabalhos eram manuscritos ou
datilografados, muitos professores aceitavam simples cópias de conteúdos com as
devidas referências e às vezes nem isso. Tais fatos evidenciam que a “culpa”
dessa prática não deveria ser apenas dos alunos. Se não eram cobrados a
interagir com o texto pesquisado por meio de considerações pessoais, era mister
que os professores solicitassem que os
trabalhos fossem feitos de maneira adequada. Deveriam, portanto, agir
como tutores e dirimir as dúvidas quanto à execução dos trabalhos escolares.
Uma estratégia para evitar que houvesse cópias abusivas
seria requerer que os trabalhos fossem feitos com roteiros de pesquisa. Nesse
caso, as perguntas deveriam ser bem
elaboradas, a fim de “obrigar” os alunos
a refletir sobre determinado assunto. Os alunos deveriam assim proceder com o
objetivo de elaborar comentários próprios e tecer suas considerações.
Com a informatização das escolas, passamos as dispor de
CDs Multimídia para pesquisas. Não demorou muito para que surgisse a internet. Posteriormente, as pesquisas
tornaram-se ainda mais acessíveis com o Google.
Contrapondo-se à facilidade de acessar os mais variados
temas, passamos a conviver com o excesso de informação. A infinidade de textos
e vídeos sobre determinado assunto gerou o dilema de que nem todos os artigos
são fidedignos e/ou atualizados.
Com a chegada da Wikipédia, apesar de ser um bom exemplo
de Web 2.0 em que a participação e colaboração são evidentes, deve-se ter em
conta que muitos de seus artigos devem ser vistos com certa desconfiança e
ressalva. Recentemente descobri que há o Google Acadêmico, cujos artigos são
selecionados de acordo com a qualidade e, portanto, de melhor qualidade para
pesquisas.
É imperativo que os professores se preocupem com a
produção textual de seus alunos. Além de orientar seus alunos quanto ao uso da
internet de maneira adequada e também como proceder ao realizar pesquisas, é
importante incitá-los a pensar. Faz-se necessário que haja o esclarecimento
sobre as limitações dos processadores de texto. Por exemplo, há a
disponibilidade de correção ortográfica pelo Word, mas a máquina não substitui o estudante ou pesquisador quanto
à estruturação do texto na questão de coerência e coesão.
Quando pensamos nas questões dos valores humanos
inseridos nas atividades didático-pedagógicas, percebemos que os livros didáticos
há um bom tempo trazem textos contextualizados cujos temas ressaltam questões
éticas e morais, bem como outros valores humanos.
Alguns dos temas recorrentes nos livros didáticos e em
palestras ministradas no ambiente escolar são a respeito das Drogas, das DSTs,do
Meio-Ambiente, do Preconceito entre outros. Atualmente destaca-se também no ambiente escolar o Bullying e a sua inserção no ciberespaço, o Ciberbullying. Esses termos passaram a ser conhecidos por
profissionais da Educação e também pelos estudantes. No entanto, sabemos que
mesmo antes da inserção tecnológica e digital nas escolas havia agressões tanto
físicas quanto verbais. As agressões anônimas eram feitas por meio de bilhetes, cartas anônimas,
pichações de carteiras e paredes com ofensas declaradas a uma determinada
pessoa ou grupo.
Já nos meados da década de 90, muitas das agressões
passaram a ser feitas virtualmente pela internet e aumentaram com o surgimento
das redes sociais. Vale salientar que as relações interpessoais no ciberespaço
geraram uma sensação de segurança, visto que muitas pessoas deram vazão a seus
instintos e passaram a agir virtualmente de qualquer maneira. Considero tal
atitude o vale-tudo virtual: escrevem e postam o que querem sem se preocupar a
quem estão se dirigindo, com a adequação às situações de uso.
Evidentemente que o tempo da censura passou quando ainda
dispúnhamos apenas de material impresso. Entretanto, ainda há que se considerar
que a liberdade de expressão deve ser permeada pela ética. Com o advento do
mundo virtual, do ciberespaço, fez-se necessário elaborar algumas regras
conhecidas pelo neologismo netiqueta. No inglês temos a palavra netiquette, uma aglutinação das palavras network e etiquette. O termo inglês net significa rede e etiqueta, como sabemos,
é o conjunto de normas para a conduta social adequada. Considero essencial
lermos algumas das regras que caracterizam o bom-senso nas relações
interpessoais no ciberspaço, as quais podemos encontrar no seguinte site:
A
netiqueta e a filosofia: ética no ambiente virtual
Realmente, devemos lembrar e passar para nossos alunos que a liberdade de expressão deve ser permeada pela ética.
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